domingo, 22 de janeiro de 2012

Todo medo anormal - parte 1


- Por favor, por favor... Não me mate. – implorava a moça, soluçando. Uma bela morena de cabelos crespos e olhos verdes, amarrada no porta-malas do sedã preto.
- Pensei que tivesse amordaçado essa vadia.  – resmungou o motorista do carro e líder da quadrilha. Um homem baixinho, careca e vigoroso, com uma tatuagem de dragão negro no braço esquerdo.  
- Mas, ela me mordeu!  - protestou o outro, seu compassa, no banco de passageiro.
- Claro, me esqueci por um momento que você não era um idiota, Rob. Uma mulherzinha fraca! Seu inútil.
Bufando de raiva, o rapaz pensou em protestar mais uma vez, mas percebeu que não seria prudente contrariar o chefe quando ele estava irritado, então, murmurou um xingamento rápido, torcendo para que chegassem logo ao seu destino.
Aquela era uma estrada esburacada, mas um excelente atalho para chegar onde desejavam e despistar quem os procurasse. O prefeito daquela cidade era totalmente desleixado, quase nunca fazia obras relevantes e gastava quase toda verba em pequenas futilidades, mas não conseguiu omitir o número exorbitante de acidentes que acontecia naquela rota, então a declarou inutilizável.
Pobres coitados... Pensou o careca, sarcástico, aquele papo de acidentes era tudo ladainha de quinta, aquela era uma rota de comércio de drogas, e eles nem sequer suspeitavam de nada.
Consuelo Montenegro sempre foi uma religiosa fervorosa, do tipo que nunca faltava à missa e sempre consultava a bíblia, mas deixou ter de fé quando percebeu que não seria solta. Havia implorado por piedade, mas seus malfeitores eram implacáveis, especialmente nas represálias, então ela continuou a chorar, mas nem sequer teve tempo.
Alguns solavancos depois, eles haviam chegado ao local planejado.
O comparsa desceu primeiro, carregando o que parecia ser uma maleta de ferramentas. Em seguida, foi o chefe, altivo, esnobe carregando um revólver na mão direita.
Cautelosamente, o comparsa abriu o porta-malas e o que viu, teria o feito ter pena. Se ele tivesse um coração, claro.
Os cabelos crespos estavam espalhados, finos, como pelugem de rato. O castanho vivo havia desaparecido dando lugar a um tom pálido, discutível. Os olhos verdes, aguados, e os lábios, naturalmente vermelhos, ressecados e feridos dos beijos roubados.
Com um sorrisinho de nítido prazer, o careca puxou a vítima pelo braço, quase a arrastando, a garota estava tonta de fome e medo, então olhou para paisagem, esperava amenizar o medo e mostrar um mínimo de dignidade.

Era um pasto verde, recentemente aparado, observou, provavelmente estava perto de alguma fazenda. E um milharal, ela notou ao olhar para esquerda. Alguém poderia muito bem se esconder ali.
Uma chama de esperança acendeu no seu peito, e lamentou não ter comido a comida que a ofereceram, era esperta, temia que fosse dopada e fizessem sabe-se lá o quê com ela.
- Nem pense nisso, doçura. – o careca avisou, erguendo o dedo indicador ameaçadoramente em sua direção. – Detestaria cortar sua cabeça. o lembrou, e acrescentou confiante. – Os abutres não aproveitaram toda refeição.
- E nem sequer vão! – rebateu a garota, atrevida. Aproveitou o curto momento de distração do careca, quando ele a advertia, escapando para se atracar no milharal perto dali. Parou alguns metros depois, deitando-se para descansar, estava suada e imunda, mas aí se lembrou que não havia se deitado e que suor não era vermelho escuro.
- Doçura. – uma agradável voz masculina a chamou.