- Por favor, por favor... Não me mate. – implorava a moça,
soluçando. Uma bela morena de cabelos crespos e olhos verdes, amarrada no
porta-malas do sedã preto.
- Pensei que tivesse amordaçado essa vadia. – resmungou o
motorista do carro e líder da quadrilha. Um homem baixinho, careca e vigoroso,
com uma tatuagem de dragão negro no braço esquerdo.
- Mas, ela me mordeu!
- protestou o outro, seu compassa, no banco de passageiro.
- Claro, me esqueci por um momento que você não era um
idiota, Rob. Uma mulherzinha fraca! Seu inútil.
Bufando de raiva, o rapaz pensou
em protestar mais uma vez, mas percebeu que não seria prudente contrariar o
chefe quando ele estava irritado, então, murmurou um xingamento rápido,
torcendo para que chegassem logo ao seu destino.
Aquela era uma estrada esburacada,
mas um excelente atalho para chegar onde desejavam e despistar quem os
procurasse. O prefeito daquela cidade era totalmente desleixado, quase nunca
fazia obras relevantes e gastava quase toda verba em pequenas futilidades, mas
não conseguiu omitir o número exorbitante de acidentes que acontecia naquela
rota, então a declarou inutilizável.
Pobres coitados... Pensou o careca, sarcástico, aquele papo de acidentes era tudo ladainha
de quinta, aquela era uma rota de comércio de drogas, e eles nem sequer
suspeitavam de nada.
Consuelo Montenegro sempre foi uma religiosa fervorosa, do
tipo que nunca faltava à missa e sempre consultava a bíblia, mas deixou ter de
fé quando percebeu que não seria solta. Havia implorado por piedade, mas seus
malfeitores eram implacáveis, especialmente nas represálias, então ela
continuou a chorar, mas nem sequer teve tempo.
Alguns solavancos depois, eles
haviam chegado ao local planejado.
O comparsa desceu primeiro, carregando o que parecia ser uma
maleta de ferramentas. Em seguida, foi o chefe, altivo, esnobe carregando um
revólver na mão direita.
Cautelosamente, o comparsa abriu o porta-malas e o que viu,
teria o feito ter pena. Se ele tivesse um coração, claro.
Os cabelos crespos estavam espalhados, finos, como pelugem
de rato. O castanho vivo havia desaparecido dando lugar a um tom pálido,
discutível. Os olhos verdes, aguados, e os lábios, naturalmente vermelhos,
ressecados e feridos dos beijos roubados.
Com um sorrisinho de nítido prazer, o careca puxou a vítima
pelo braço, quase a arrastando, a garota estava tonta de fome e medo, então
olhou para paisagem, esperava amenizar o medo e mostrar um mínimo de dignidade.
Era um pasto verde, recentemente aparado, observou,
provavelmente estava perto de alguma fazenda. E um milharal, ela notou ao olhar
para esquerda. Alguém poderia muito bem
se esconder ali.
Uma chama de esperança acendeu no seu peito, e lamentou não
ter comido a comida que a ofereceram, era esperta, temia que fosse dopada e
fizessem sabe-se lá o quê com ela.
- Nem pense nisso, doçura. – o careca avisou, erguendo o
dedo indicador ameaçadoramente em sua direção. – Detestaria cortar sua cabeça. – o lembrou, e acrescentou confiante. – Os abutres não aproveitaram toda refeição.
- E nem sequer vão! – rebateu a garota, atrevida. Aproveitou
o curto momento de distração do careca, quando ele a advertia, escapando para se
atracar no milharal perto dali. Parou alguns metros depois, deitando-se para
descansar, estava suada e imunda, mas aí se lembrou que não havia se deitado e
que suor não era vermelho escuro.
- Doçura. – uma
agradável voz masculina a chamou.